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Por que não consumimos mais frutas e hortaliças?

São louváveis iniciativas como as da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), que designou 2021 como o “Ano Internacional das Frutas e Hortaliças” *. Essa promoção veio em um momento muito oportuno, já que nunca se falou tanto em saúde como atualmente, devido à pandemia de covid-19. Relatório da Euromonitor publicado recentemente evidencia que consumidores (pesquisa global) relacionam imunidade com o consumo regular de frutas e hortaliças frescas.

 

A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que a melhoria da nutrição depende do aumento do consumo de HFs frescos e semi-processados. Apesar disso, a maior parte da população mundial ainda mantém a ingestão de HFs abaixo da média recomendada pela OMS, que é de, pelo menos, 400 gramas por dia.

 

No Brasil, o consumo per capita de frutas e hortaliças está abaixo desse volume e a situação piorou: houve ligeira redução da ingestão (kg por habitante) por brasileiro entre as POFs de 2008 e 2017 (antes da pandemia). Um outro dado que reforça o baixo consumo nacional é o da Pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, que mostra redução, de 2015 a 2019, na periodicidade do consumo regular, que é de cinco porções diárias de frutas e hortaliças.

 

Dietas não saudáveis, obesidade em alta e a desnutrição estão entre os 10 principais fatores de risco de doença em todo mundo. Então, por que ainda é baixo o consumo dos HFs? É possível concentrar a discussão em cinco pontos.

 

ACESSIBILIDADE – O orçamento familiar apertado pode fazer com que o consumidor disponibilize um menor valor para a compra de produtos frescos, optando por alimentos básicos e baratos e ultraprocessados. No geral, com os dados da POF/IBGE, constata-se que o consumidor brasileiro manteve a mesma proporção do seu orçamento para comprar frutas e hortaliças entre 2008-2009 e 2017-2018. No entanto, a queda do consumo per capita dos hortifrútis entre 2008-2009 e 2017-2018 é explicado, em termos gerais, pelo poder de compra limitado do consumidor e pelo aumento médio dos preços dos hortifrútis. Estudo do professor Rodolfo Hoffman, da Esalq/USP, mostra que, para o extrato médio da população, a demanda por frutas e hortaliças se tornou mais sensível a variações de renda na recente POF (2017-2008).

 

DISPONIBILIDADE/ACESSO – Sazonalidade e perecibilidade dos produtos dificultam uma oferta consistente ao longo do ano. Além disso, a falta de infraestrutura na cadeia de comercialização é um fator prejudicial, gerando perdas de frutas e vegetais em diferentes etapas da cadeia de comercialização. Apesar da queda geral no consumo per capita de hortifrútis, houve aumento de consumo de alguns produtos, como batata-doce, manga, melão e limão, o que pode estar ligado à maior disponibilidade desses alimentos nos últimos anos, devido aos aumentos de área de cultivo e de produtividade, este último sendo resultado de progressos em tecnologia.

 

HÁBITOS E CULTURA – A influência da cultura, desde os primeiros anos de vida, é crucial para a definição de preferências alimentares do indivíduo. No entanto, mudanças no estilo de vida também influenciam os hábitos alimentares e podem levar o consumidor a buscar alimentos de baixa qualidade nutricional, mais baratos, práticos, atraentes e saborosos, com açúcar, óleos e ultraprocessados. Análise do perfil do consumidor de frutas e hortaliças cruas, realizada pela Vigitel, mostra que indivíduos com frequência regular de consumo desses alimentos (cinco ou mais dias por semana) têm nível de escolaridade maior, sendo a maioria mulheres e residem principalmente no Centro-Sul do País. O estudo também trouxe algumas evidências da existência de uma relação positiva entre consumo de hortaliças e estilo de vida mais saudável – foi encontrada correlação positiva entre consumo de hortaliças e frutas e prática de exercícios físicos e correlação negativa entre consumo de hortaliças e o hábito de fumar.

 

FALTA DE CONHECIMENTO/PROMOÇÃO – No geral, as pessoas conhecem as frutas e hortaliças, mas não entendem sua importância para a saúde e o valor nutricional. Por isso, a disseminação de informação sobre os benefícios dos HFs é muito importante, especialmente diante do marketing agressivo dos alimentos processados.

 

CADEIA DE COMERCIALIZAÇÃO (DISTRIBUIÇÃO) – A falta de organização (principalmente das centrais de abastecimento) e a informalidade da cadeia, infelizmente, não contribuem para superar os atuais desafios do setor: alcançar  menores custos e perdas e maiores qualidade e segurança. A relação direta entre grandes produtores e grandes redes de supermercados até avança, mas isso não é verificado para o setor como um todo, especialmente no caso dos pequenos e médios produtores, intermediários e os consumidores em geral. Neste ponto, destaca-se que a comercialização de frutas e hortaliças que passa por um canal mais formal/organizado de acordo com as normas de rastreabilidade e padronização não alcança 20% do volume.

 

Os HFs são importantes para a manutenção de hábitos saudáveis, para a prevenção de doenças e para o fortalecimento da imunidade. Além disso, o setor tem forte interferência nos desenvolvimentos socioeconômico e ambiental do planeta. Colocar os hortifrútis em foco é, ainda, uma ótima oportunidade para melhorar as práticas agrícolas, comerciais, apoiando especialmente os pequenos agricultores familiares e a modernização da comercialização.

 

Pontos acima foram discutidos pela Prof. Margarete Boteon, do Cepea/Esalq, no Seminário Frutas e Hortaliças: por que comer mais?, organizado pela CNA, no dia 04/08/2021, e pode ser acessado na íntegra pelo link.

 

* O escritório brasileiro da ONU traduziu “fruits and vegetables”, uma expressão em inglês, como “frutas e vegetais”. Entretanto, tecnicamente, esta não é a tradução correta, pois os nutricionistas utilizam frutas e hortaliças para essa identificação – por isso, neste texto, optou-se por utilizar “hortaliças”.

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